Militar esteve em dois países em guerra e voltou ao Brasil

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Ilustração: Luiz Kubota

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Durante os últimos dois anos, deixei o Brasil e estive em dois países abalados pela guerra. Em um deles a guerra é econômica/territorial e no outro, que fica na África, a guerra é étnica. Ao voltar ao Brasil tive muitas surpresas, muita coisa mudou, e meus amigos perguntaram minha opinião, minha visão de mundo, e sobre os perigos de se estar em um país envolvido em conflitos bélicos. Hoje quero compartilhar com vocês um pouco desta minha estória pessoal.

A primeira sensação que se tem ao aterrisar em território brasileiro é de alívio, de missão cumprida. Como é bom voltar ao conforto do lar. E minha primeira vontade é de comer um pão de queijo (sim, porque é quase impossível achá-lo lá fora). Missão número #1: pão de queijo e café expresso, brasileiríssimos. Vou até o caixa eletrônico e faço um saque. Me surpreendo com a nova nota de dez reais: menor, parece mais colorida. E feliz estava eu até fazer o pedido no caixa do aeroporto, quando descobri que o pão de queijo e o expresso me custariam aquela nota de R$10,00 (o preço total do lanche foi R$9,50). Aí começam minhas indagações e, por que não, indignações.

Onde é mais seguro mesmo (1)?

Em um dos países em guerra que visitei, quase todos os policias a serviço não usam coletes balísticos (“à prova de balas”). Para ser honesto vi alguns usando - que julguei ser de uma tropa de choque - em festividades próximas ao dia da Independência, e não mais. Muitos também andam desarmados.

E é de certa forma triste lembrar que no Brasil, em toda as cidades por que passei, todos os policias usam colete e estão sempre armados (e armados não somente durante o serviço mas também durante suas folgas). Isto indica um nível de insegurança elevado ou, no mínimo, que policiais são constantes “alvos” de bandidos e, portanto, devem sempre se proteger. Aliás, em recentes casos os próprios bandidos estavam munidos de fuzis calibre .556 ou similar, o que torna os coletes níveis 2 e 2A, utilizados pela maioria das forças policiais, completamente inuteis.

Armamento apreendido no Paraná. Foto: Luiza Vaz / RPC

Voltemos ao país em guerra. Um caso interessante ocorreu durante uma parada militar: um jovem encostou sua bicicleta atrás de mim, em um alambrado; pegou sua máquina fotográfica, começou a tirar fotos e a sua bicicleta ficou lá. Observei, por curiosidade, por quanto tempo ele tiraria fotos até dar uma “cuidada” para ver se sua bicicleta ainda estava no mesmo lugar. O resultado: ele tirou fotos durante vinte minutos e sequer olhou para trás. Ao terminar, contente com as fotos que conseguiu, guardou a máquina, pegou a bicicleta e foi embora.

Duas semanas mais tarde eu estava passeando em uma praça e vi um memorial em frente a uma igreja. Por curiosidade decidi ver o que era, pois eu gosto de explorar lugares novos e as memórias de uma cidade: e aquele espaço em particular era dedicado a policias mortos. Havia alguns nomes, em anos que iam se alternando até 2014, o que dava (cálculo mental) uma média pouco menor que um policial a cada três anos.

No Brasil, por outro lado, entre 2001 e 2014 apenas no Rio de Janeiro, 1715 policiais militares foram assassinados. (2015, CORREA) *. Para mim e para muitos, está claro que a tal da “guerra” contra o crime é mais violenta e mais destruidora que guerras por território e recursos econômicos mundo afora. No entanto ela é mais silenciosa. Um tanque de guerra israelense atingido por um míssel é notícia na Al Jazeera, na BBC e na CNN. Veículos policiais - e bases policiais e os policiais em si – atingidos por tiros de fuzil e/ou granadas não. **

Andando de ônibus

Entro no ônibus elétrico por uma das portas de trás. Pode-se entrar por qualquer porta pois não há cobrador. Estou com meu ticket de papel – que pode ser usado uma única vez - , e aperto ele contra um marcador manual. Pois é, eu mesmo “me cobro”: tenho que validar o meu ticket ao entrar no ônibus ou, ao menos, antes de descer dele. Todos fazem isso sem nenhuma cobrança. Cidadãos, sentido-se respeitados e, portanto, respeitando as regras. Diz a lenda que volta e meia existe alguém que fiscaliza isso e que, se você for flagrado sem “se cobrar”, irá pagar uma multa. Nunca vi esse tal fiscalizador, se é que existe.

A tarifa, aliás, custou R$0,16. (equivalência calculada com o câmbio do dia 24 de agosto). ***

Aí eu me pergunto, que raio que caiu no Brasil pra construírmos uma rede viária tão grande sem hidrovias ou ferrovias, e tudo isso sem nada elétrico se temos uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo? Por que nós temos apenas ônibus à Diesel (ou em algumas cidades “BioDiesel”)? Ademais, onde foram parar os bondinhos que existiam aqui e acolá? Não tenho essas respostas.

Até hoje na praça Taksim em Instabul tem o bondinho que leva as pessoas para cima e para baixo (de graça), poupando-lhes tempo e energia (e fazendo a alegria das crianças).

Onde é mais seguro mesmo (2)?

Hora de falar sobre o país africano. Lá, ando pelo centro da cidade: local onde mercadores, clientes, mulheres e crianças misturam-se e andam agitados como em uma bando de gaivotas no estaleiro. Prédios de escritórios compartilham espaço com tendas improvisadas. Os prédios são protegidos geralmente por um ou dois seguranças munidos de um pedaço de pau (O tal do stick), enquanto as tendas não tem proteção.

Mulheres estão atrás de frutas, verduras e grãos; homens, atrás de sapatos e ternos. No meio disso tudo há os cambistas, que trocam dólares pela moeda local com taxas melhores que as dos bancos. São homens sentados em uma cadeira de plástico, embaixo de um guarda-sol, atrás de uma mesa (também de plástico). Eles colocam o dinheiro à mostra em cima da mesa, em montes amarrados com elásticos sinalizando que estão dispostos a trocar.

O dinheiro fica lá em cima da mesa, à mostra, “ao relento”, esperando por clientes. Pela altura das pilhas minha equipe estima que a quantidade em cima da mesa equivale a aproximadamente 500 dólares. Muitos dos africanos que estão ali não irão obter isso quiçá em 6 mese de trabalho. Mesmo assim, ninguém olha, ninguém tenta roubar, não tem arrastão.
No Brasil, para trocar meu dinheiro (dólares por reais) fui recepcionado em uma microssala, depois de passar por uma porta de ferro. A atendente falava alto, quase gritava para fazer-se escutar através do vidro blindado.

Porque me ufano do meu país

Tudo isso me fez rever meus conceitos de “Porque me ufano de meu país” (livro que li na sexta série), ou em outras palavras, porque me orgulho dele, de viver nele e de ser um cidadão brasileiro.

Há diversos pontos bons, como por exemplo os acordos bilaterais de imigração que permitiram-me entrar em diversos países sem a necessidade de visto. E mais, as pessoas gostam de fazer amizades com brasileiros e vêem em nós uma pátria alegre, descontraída e (ainda) amante do futebol.

O que ninguém quer

O que eu não quero, na minha posição de cidadão, é que toda essa alegria vá por água a baixo por ineficácia e incompetência política e/ou administrativa. Não vou entrar no mérito político, não é necessário. A storyline do meu facebook foi tomada por discussões políticas. “Salário de servidores públicos foram parcelados em um Estado, professores insatisfeitos em outro, milhares vão às ruas em protesto, crise econômica, dólar nas nuves, volta da CPMF” é só o que vejo ao navegar na rede social.

Por outro lado, ao sobrevoar o território brasileiro a gente se dá conta da imensidão da economia e do potencial nacional, não só para o desenvolvimento econômico como também para o desenvolvimento social.

No fundo, o Brasil parece estar em guerra. Não contra outros territórios ou nações, mas parece estar em guerra contra si mesmo (ideológica, de classes, política, o que for). O que tenho visto em todo lugar é uma necessidade por um governo mais competente antes que as coisas piorem. Me parece que a bandeira de Platão (corrijam-me se eu estiver errado), de que “O bom governo depende da virtude de bons governantes e as massas devem ser dirigidas por homens que se distinguem pelo saber” quer ser hasteada.

Tenho e mantenho minha fé, creio que essas noções de cidadania e civismo – que mormente vi nos países que visitei! - possam ecoar novamente nos corações brasileiros; nas escolas, nos locais de trabalho, nos almoços de família, em toda a nação. A volta do respeito ao próximo e ao que é do próximo, do pensar coletivo antes do individual e do fim do estado de guerra brasileiro.

Aí então, quem saiba, eu possa comer um pão de queijo e curtir um expresso, enquanto deixo minha bicicleta encostada em um canto qualquer!

* CORREA, Hudson. Um batalhão de PMs mortos. Disponível em http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/03/um-batalhao-de-bpms-mortosb...

** Incontáveis matérias, disponível em: https://www.google.com.ua/webhp?ie=UTF-8#q=base%20policial%20atacada

*** Ok ,eu entendo que essa comparação possa ser um tanto injusta pois, devido ao esforço de guerra a economia daquele país sofre e a moeda nacional sofre desvalorização perante outras. Mesmo assim, utilizando a cotação de antes do conflito o preço seria equivalente a R$0,50.